Palavresca

Carta pra Ser Lida pelos Meus Filhos em Algum Tempo um Pouco Distante | Júlia Rathier

24 de novembro de 2018

A participação da Júlia Rathier sempre é especial, nesse mês mais um texto para muita reflexão.

“Ao Brasil. Aos meus. Pais, amigos. Ao meu irmão. Ao V. À Evey Hammond. Ao Fa Zhou e sua grande Mulan. Ao Sirius Black. Ao Sartre. À Maria Ribeiro. Ao Neymar. Aos brasileiros. E, especialmente aos meus filhos, que eu adoraria saber os nomes mas ainda não sei.

Vinte e oito de Outubro. Eu não vou dizer o ano assim, de pronto. Quem quiser e não lembrar, que chute. Vai ser difícil acertar, então, faça uma boa aposta. Bom negócio. Aos meus filhos, se vocês gostarem de história na escola- que eu sinceramente espero que sim- vão dar um jeito de desbravar a referência.

O dia em que o Estado Democrático de Direito Brasileiro elegeu Jair Messias Bolsonaro presidente da República.

Eu sei que vou sempre ter outros modos de me lembrar desse dia. O dia em que eu queria ter parafraseado V, com aquela fala gênia de quando ele disse gloriosamente a Evey Hammond que ideias são à prova de bala. Mas infelizmente, aqui, não são. Ou pelo menos não têm sido.E sob a égide da ignorância, há quem comente que precisamos acordar pro fato de que “gente morre todo dia”.

O dia em que eu queria ter parafraseado Sirius Black, dizendo que há forças variadas e opostas em nós, e a questão tá em como a gente escolhe agir. E que o que a gente escolhe, poderosamente define quem somos. Será que o Sirius lia Sartre? O dia em que eu queria ter parafraseado Fa Zhou- o pai da minha amada e atemporal Mulan- dizendo que a flor que desabrocha na adversidade, é a mais bela de todas. Tomara que ela desabroche logo.

Eu tenho sorte de ter convivido com gente muito boa e livre. Não necessariamente nessa ordem. Consequentemente, agarrei a oportunidade de um puta repertório. É natural que não haja nele só personagens mas também inspiração pra todas essas referências. E foi daí, que eu, reles leitora de “Tudo o que eu sempre quis dizer mas só consegui escrevendo” pude parafrasear a Maria Ribeiro. Eu parafraseei a Maria. Que nas páginas dela, parafraseou o Neymar. Que no estádio parafraseou no mínimo o mundo inteiro quando disse a frase mais inteligente, erudita e rica de toda a língua portuguesa: Eu tô aqui. Pois é, Neymar. Pois é, Maria. Pois é, Brasil. Eu também tô aqui. Decepcionada, mas tô.

Eu que um dia vou pegar meus filhos pela mão e dizer, entrementes, que amar por admirar é mais genuíno do que respeitar por temer. Eu que um dia vou olhar pra meninice deles e ver a olho nu, realizados os meus melhores projetos- Sartre também teria falado assim da sua, eu acho. E minha mãe também acha. E meu pai, também. E pais e mães de tudo que é canto por aí, também acham. Dizem que filho é uma ideia viva. Perspectiva alta do mundo.

Eu, que vou dizer a eles que todo mundo é gente e que ainda bem que existe gente que gosta e acredita em gente- mesmo sabendo que os animais sempre nos dão aula sobre quase tudo. Pois é, Maria. Pois é, Neymar. Pois é, Brasil. Pois é, pai e mãe. Pois é, meu irmão. Pois é, meus amigos. Pois é, meus futuros filhos que eu adoraria dizer os nomes mas ainda não sei. Eu tô aqui. De luto e luta pelos Direitos Humanos. Espero estar errada sobre tudo o que acho que é possível- e provável- que aconteça. Eu realmente espero estar errada. Enquanto isso, se a gente se topar por aí- em ideia ou em presença- saiba que o que eu mais vou querer falar é:

Vamos juntos?

Um abraço,

Júlia.”

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