Palavresca

Minha Casa, Sagrada Bagunça

17 de abril de 2018

Hoje é o dia da Júlia nos presentear com sua contribuição maravilhosa no Blog. Um texto exclusivo, lindo, sensível, poético. A crônica nos faz pensar, a jovem tem apenas uma vela e seus sentimentos, quem não se sentiu ou sente assim ? Leia, releia, volte a ler!

“Luz de lanterna que me faltou justo no dia em que depois de anos, você veio . A tempestade anunciou o acidente lá fora e a falta de luz no bairro. O poste (quase póstumo, por que antes de fazer falta quase ninguém nota) não caiu, mas foi por pouco. Eu sei que parece besta falar da importância de algo inanimado numa ode à saudade, mas de fato, ninguém liga pras histórias que se fizeram à luz, antes de perdê-la.

Eu não tenho mais lanterna desde muito antes de voltar a precisar, sabe-se lá por quê. Não sei onde foi parar, assim como muita coisa aqui. De reserva só tem essa vela que acabei de acender com as mãos trêmulas e mal ensaiadas no teu corpo, pra entender onde é que você se situava.

Num ladrilho daquele chão sem sombra, tem coisa que mesmo míope qualquer amante enxerga. Mas o charme de te encostar pra me orientar dentro da casa, é o flerte oportuno da condição de relembrar. Os olhos se cruzam e a tua pele delata que você se lembra de momentos semelhantes a esse. Só que tinha luz, naqueles.

Agora é o arrepio no réquiem efêmero, questionando pra onde é que a gente vai até que a luz volte, ou, se preferir dizer: quantos instantes mais perderemos na ignomínia do amor um do outro.

As paredes têm ouvidos. Por isso, não olvidam. Essas, eu não pintei desde que você partiu. Continuam do celeste que quando te tornaste perita em crítica de tons (pelo teu próprio julgamento e esperteza) selecionaste.

A despensa, vide entulharia. Amar na despensa, ninguém dispensa. Se você derruba o utensílio túrgido, depois arruma a bagunça sagrada e tudo volta a ficar bem. Cada um com a sua ordem e se puder haver uma nossa, melhor.

No quarto, nenhuma fresta. A tocaia quando cortada pela presença dos dois corpos, faz ranger a porta como um grito de ancião quando anuncia uma dor. Mas aquele som de ínterim não me assusta. Tantos sonhos nessa cama desalinhada eu já tive, que me puseram mais medo… Exemplo: não ter mais à vista as íris amendoadas tuas.

O chão do meu quarto não é de neve pra guardar teus passos, nem minha cama ou coração de ferro pra aceitarem presença de mal grado, então eu digo: o quarto é o tesouro do espaço-tempo. Só fique se sincero for o gosto.

Tu te encosta na janela com a testa se franzindo e o sorriso de canto. Eu já sei. A risada ácida quer dizer que eu já deveria ter entendido. Acontece que o óbvio salva amores (e vidas).

Aproveite e tente perceber que o ébano é aquele em que outrora gravaste manchas de máscara diluídas n’água, com o borrão daquele minuto triste. Elas secaram mas devem haver vestígios, ainda.

E da cozinha, você lembra? Vem cá, vou-lhe mostrar. Me acompanhe em passos silenciosos como os que costumavas dar nas manhãs em que não querias que eu despertasse até que o chá fervesse. Fervura era mesmo a minha felicidade, o ânimo que me invadia o peito por despertar de um repouso daquela maneira.

A cozinha. De azulejo português. A mescla do azul com branco nunca podia me faltar e você entendia que não sou só um saudosista. Eu sou um entusiasta da cultura das terras todas em que já pisei, mas pra completar a barganha da escolha, eu gosto demais de azul.

Naquela época, depois de alguns não tão poucos primeiros jantares, descobriste que eu não sabia cozinhar teu prato predileto. Lembra de acompanhar algumas tentativas minhas? Depois do desagrado, a gente sabe que não acerta sempre porque não é pra acertar. Ninguém arrisca só pra petiscar, por mais que o ditado o suponha. A gente vai logo querendo o banquete mesmo. Alguns querem incessantemente prover e não parar de surpreender, pra não se depararem com uma falha. Outros, querem incessantemente receber pra nunca esquecerem do gosto. Esse é o inconfundível engodo pelo banquete do Outro.

Quer experimentar o quê? Mais adiante, tem também o banheiro com o box ainda úmido, gotejando água deslizante na mesma freqüência com que outras coisas poderiam se demorar. Claramente enxergo-nos naqueles dias passados em que não fazia vapor pouco nas horas a sós.

E então, por último vamos à sala de estar pra ficar por lá. Mesa de jantar já era lenda. Quem mora sozinho não quer mais tablado de vidro, nem pés de madeira pra lustrar. As bancadas são o improviso.

Agora somos instantes, de novo. O tempo não é o mesmo, nem nós. Mas você viu a casa em que podes voltar a fazer morada se a disponibilidade subjetiva estiver à contento. Eu continuo arrepiando e no amor maduro te convido pra querer escolher um fim pra esse dia, diferente de todos os outros.”

Júlia Helena Rathier | Beltronense, escritora, tem a coluna “Sobre tudo sobretudo”, na revista Obvious Magazine aqui

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